Quando a anemia não melhora com ferro

Talassemia e Gravidez

Nem toda anemia na gravidez é por falta de ferro.
Essa é uma frase que costumo repetir no consultório, especialmente quando recebo pacientes cansadas, pálidas, e já tomando suplementação há semanas, sem qualquer melhora.

Uma das causas menos reconhecidas (e mais negligenciadas) da anemia gestacional é o traço talassêmico, uma alteração genética que interfere na produção da hemoglobina e que pode ser confundida com deficiência de ferro.

O que é a talassemia?

A talassemia é uma condição genética que afeta a produção das cadeias de globina, componentes da hemoglobina.
Existem vários tipos, mas o mais comum nas mulheres brasileiras é o traço de beta-talassemia, também chamado de beta-talassemia minor.

Quem tem o traço costuma apresentar:

  • Hemoglobina entre 9 e 11 g/dL
  • VCM e HCM baixos
  • Ferritina normal (ou até alta)

A suplementação de ferro sem real deficiência pode ser ineficaz ou até prejudicial.
Em pacientes com traço talassêmico:

  • O ferro não aumenta a hemoglobina
  • Pode haver acúmulo desnecessário de ferro, aumentando o risco de efeitos adversos (como constipação, disbiose intestinal e até estresse oxidativo fetal)

Por isso, investigar a causa da anemia antes de tratar é fundamental.

Como diagnosticar corretamente?

Se a paciente está grávida, cansada e com hemograma mostrando microcitose e hipocromia, precisamos olhar:

  • Hemograma completo com reticulócitos
  • Perfil de ferro
  • Eletroforese de hemoglobina
  • B12 e folato

O papel do ácido fólico e o dilema do autismo

Mulheres com talassemia precisam de mais folato durante a gestação, porque produzem glóbulos vermelhos de forma ineficiente (eritropoese ineficaz).

A recomendação, nesses casos, é usar ácido fólico em dose maior (até 5 mg/dia).

Sim, há estudos que discutem uma possível associação entre excesso de ácido fólico e risco de autismo [Surén P, JAMA, 2013], mas a deficiência de folato aumenta comprovadamente o risco de:

  • Malformações do tubo neural
  • Parto prematuro
  • Anemia fetal
  • Baixo peso ao nascer

O equilíbrio está na personalização. Nem 0,4 mg para todas tampouco doses altas sem critério.

Riscos da anemia não tratada corretamente

Se não for bem conduzida, a anemia gestacional pode levar a:

  • Restrição de crescimento fetal
  • Prematuridade
  • Hemorragia no parto
  • Déficits cognitivos no bebê

Por outro lado, tratar de forma genérica e sem investigar também pode trazer riscos.

Hemoglobina baixa não é sinônimo de ferro baixo.

É preciso avaliar, diferenciar e tratar com precisão.

O corpo da mulher grávida fala.
E o sangue é uma das formas mais fiéis de escuta.

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